Traduction en Portugais : Carta de Thomas P., Colete Amarelo encarcerado desde 12 de fevereiro

Depois do ato XIII, no dia 10 de fevereiro apareceu estampado nos jornais o nome de Thomas P., figura do “super vândalo”. Mas, depois, só o silêncio. Faz 3 meses que está encerrado na prisão de Fleury-Mérogis em preventiva, sob instrução criminal. Para que seu isolamento pare, Thomas nos enviou uma carta escrita na cela e que aborda os motivos que o motivaram a combater ao lado dos Coletes Amarelos.

Carta de um Colete Amarelo na prisão

 29/04/2019.

Olá,

Meu nome é Thomas. Sou parte dos numerosos Coletes Amarelos que dormem nesse momento na prisão. Faz mais de 3 meses que estou encarcerado em Fleury-Mérogis sob mandato criminal.

Sou acusado de várias coisas após minha participação no Ato XIII (9 de fevereiro) em Paris:

• “Degradação ou deterioração de um bem pertencendo a outrem”.

• “Degradação ou deterioração de um bem pertencendo a outrem por meios perigosos para as pessoas” (incêndio de uma Porsche).

• “Degradação ou deterioração de bem por meios perigosos para as pessoas depositárias de autoridade pública” (Ministério das Forças Armadas).

• “Degradação ou deterioração de um bem destinado à utilidade ou a decoração pública” (ataque a uma viatura de polícia e uma viatura da administração penitenciária).

• “Violência agravante por duas circunstâncias (com arma e em depositário da autoridade pública) seguida de incapacidade não excedendo 8 dias” (a arma seria uma grade, na mesma viatura de polícia, 2 dias de internação para o trauma).

• “Violência sobre uma pessoa depositária da autoridade pública sem incapacidade”.

• “Participação a um grupo formado com o objetivo de preparação de violências contra as pessoas ou de degradação ou destruição de bens”.

Efetivamente, cometi uma parte desses atos disfarçados de formulações pesadas… e os assumo. Tenho plena consciência que ao escrever isso me arrisco em ficar um pouco mais de tempo atrás das grades, e entendo muito bem a todos os que preferem não reivindicar seus atos diante da justiça e apostam a uma eventual clemência.

Quando lemos essa longa lista de delitos e seus títulos, temos de pensar que sou um louco furioso, não é? Aliás, é assim que me descreveram na imprensa. Ou seja, me reduziram a uma palavra bem prática: “vândalo”. Simplesmente. “Porque esse moleque quebrou? – porque é um vândalo, é evidente”. Tudo é dito, circulem não há nada que ver e, sobretudo, nada para entender. É de acreditar que alguns nascem “vândalos”. Isso evita ter que se perguntar porque tal loja foi alvo de violência mais do que tal outra e se, por acaso, esses atos não teriam algum sentido, ao menos pelos que tomam o risco de realizá-los.

É bastante irônico, aliás, que seja colocado no estigma do “vândalo”, notadamente porque a coisa que mais apreço na vida é a construção. Carpintaria, alvenaria, encanamentos, eletricidade, soldagem… arrumar as coisas, construir uma casa, isso é o que gosto. Claro, nada do que eu construí ou arrumei se parece a um banco ou a uma viatura de polícia.

Em alguns meios de comunicação fui tratado também de “bruto”, porém, nunca fui alguém violento. Poderíamos dizer que sou um doce, até que isso me tornou a vida bastante complicada durante minha adolescência. Obviamente, na vida, passamos todos os dias por situações complicadas e nos endurecemos. Mas, não busco dizer que sou um cordeiro ou uma vítima.

Não somos mais inocentes quando vemos a violência “legítima”, a violência legal: a da polícia. Vi o ódio ou o vazio nos seus olhos e escutei suas palavras de gelo: “dispersem, voltem para suas casas”. Vi as cargas, as granadas e os espancamentos em regra. Vi os controles, as revistas corporais, as detenções e a prisão. Vi as pessoas caindo, ensanguentadas, as vi mutiladas. Como todos os que manifestavam esse 9 de fevereiro, aprendi que mais uma vez, um homem acabava de ter a mão arrancada por uma granada. E logo, não vi mais nada por causa do gás. Todos sufocávamos. É nesse momento que decidi de não ser mais uma vítima e de combater. E estou orgulhoso disso. Orgulhoso de ter levantado a cabeça, orgulhoso de não ter cedido ao medo.

Obviamente, como todos os que são alvos da repressão do movimento dos Coletes Amarelos, comecei manifestando pacificamente e cotidianamente, arrumo sempre meus problemas com a palavra antes que pelos punhos. Mas estou convencido que em certas situações, o conflito é necessário. Porque o debate por tão “grande” que ele seja, pode as vezes ser falsificado ou distorcido. Só basta para isso que quem o organize faça as perguntas nos termos que lhe interesse. Nos dizem por um lado que as caixas do Estado estão vazias, mas, são concedidos bilhões aos bancos cada vez que estão em dificuldade, nos falam de “transição ecológica” sem jamais questionar o sistema de produção e consumo na origem de todos as interrupções climáticas. Somos milhões gritando que seu sistema é podre e nos explicam como pretendem salvá-lo.

No fim, tudo é uma questão de equilíbrio. Existe um uso justo da loucura, um uso justo da palavra e um uso justo da violência.

Temos que tomar as coisas em nossas mãos e parar de implorar os poderes tão determinados a nos enviar para o muro. Precisamos um pouco de seriedade, um pouco de honra e reconhecer que certo número de sistemas, de organizações e empresas destroem nossas vidas tanto quanto o meio-ambiente e que teremos algum dia que impedir que sigam sendo nocivos. Isso implica atuar, implica gestos, implica escolhas: manifestações selvagens ou mantimento da ordem?

Em relação a isso, escuto muita bobagem na televisão. Mas tem uma que me parece muito grosseira. Não, nenhum manifestante busca “matar policiais”. O que está em jogo nos enfrentamentos nas ruas, é conseguir fazer recuar a polícia, tê-la à distância, para sair de um cerco, chegar a um lugar de poder ou simplesmente retomar a rua. Desde o 17 de novembro, os que ameaçaram de sacar suas armas, os que brutalizam, mutilam, asfixiam manifestantes desarmados e sem defesa, não são os “vândalos”, são as forças da ordem. Se os meios de comunicação falam muito pouco disso, as centenas de milhares de pessoas que foram nas rotatórias e nas ruas o sabem. Atrás da sua brutalidade e das suas ameaças, é o medo que se esconde. E quando, isso aparece, em geral é que a revolução não está longe.

Se nunca tive vontade de ver meu nome aparecendo na imprensa, agora é o caso, e como espero que os jornalistas e magistrados descascam e exponham minha vida pessoal, prefiro tomar eu mesmo a palavra. Aqui vem então, minha pequena história. Após uma infância bastante banal em uma pequena cidade do Poitou, fui para a “grande cidade” ao lado para começar a estudar, sair da família (mesmo que ame muito minha família), começar a vida ativa. Não com o objetivo de encontrar trabalho e contratar credito, não, mais para viajar, fazer novas experiências, encontrar o amor, viver coisas loucas, a aventura… Os que não sonham com isso aos 17 anos devem ser seriamente perturbados.

Essa possibilidade, para mim, foi a universidade, mas rapidamente me desiludi diante do aborrecimento e da apatia reinante. E, sorte, encontrei uma assembleia geral no início do movimento da aposentadoria. Tinha gente que queria bloquear a universidade e que me chamaram a atenção. Encontrei alguns que queriam ocupar um edifício e se juntar aos trabalhadores portuários. No dia seguinte, os acompanhei para fechar o local do Medef (sindicato de patrão) e pixar “poder ao povo” nas paredes frescas. Esse dia foi o dia quando o homem que sou hoje nasceu.

Estudei história porque se falava muito em revoluções e não queria falar desde uma posição de ignorante. Mas rapidamente, decidi sair da universidade. Aprendia-se muito mais nos livros que nas aulas, mas, não tinha vontade de me “levantar” socialmente para me tornar um pequeno quadro acomodado do sistema que queria combater. Aí foi o verdadeiro começo da aventura.

Depois, vivi com muitos amigos na cidade ou no campo, foi aí que aprendi a arrumar tudo, a construir tudo. Tentávamos fazer tudo nós mesmos mais do que trabalhar para comprar. Um pouco a vida de hippie… só que sabíamos que não íamos mudar o mundo nos enterrando no nosso pequeno casulo autossuficiente. Então, mantive contato com a atualidade política, fui ao encontro dos que, como eu no passado, viviam seu primeiro movimento. É assim como me juntei aos Coletes Amarelos há quatro meses. É o movimento mais bonito e o mais forte que já vi. Me lancei de corpo e alma, sem duvidar. A tarde da minha detenção, muitas vezes algumas pessoas vieram me ver para me cumprimentar, me agradecer ou me dizer de me cuidar. Os atos que me reprovam, os que cometi e os outros são em realidade coletivos. E é precisamente isso que o poder teme, e é por isso que nos reprimem e nos encarceram individualmente e tentam nos colocar uns contra os outros. O cidadão simpático contra o “vândalo” mau. Mas, obviamente, nem o cassetete nem a prisão parecem acabar com esse movimento. Estou com todo meu coração com as e os que seguem.

Desde os muros de Fleury-Merogis, Thomas, Coletes Amarelos

>> Notas:

[1] Isso significa para muitos ecologistas oficiais que desejam que esse maldito contaminador de pobre não possa mais dirigir com sua camioneta dos anos 1990 que ele mesmo arruma e mantém. Não, ele vai ter que comprar a cada 4 anos o último carro que cada vez contamina menos.

[2] De fato, os jornais falam dos meus antecedentes judiciários por “degradação”. Tive que bater minha cabeça para lembra. Trata-se mais precisamente de um “roubo com degradação em banda organizada”. Ou seja, que depois de passar repetidamente por cima da grade para reciclar comida nos lixos do Carrefour Market no campo, tinha-se afundado um pouco. Não, não é uma brincadeira, é a magia das qualificações penais.

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